Registro histórico

Programa Indústria Solar (2017–2018): o que foi, o que entregou e por que acabou

Registro histórico independente · Redação Indústria Solar

Antes de tudo, um esclarecimento. Este é um registro histórico independente. Não temos vínculo com a FIESC, a ENGIE, a WEG ou as demais entidades citadas, e este site não dá continuidade ao programa nem recebe inscrições. Contamos o que foi o Programa Indústria Solar porque ele marcou a geração distribuída no Brasil — e porque muita gente ainda chega até aqui procurando por ele. As fontes estão linkadas ao final.

Entre 2017 e 2018, uma federação de indústrias e duas grandes empresas de energia tentaram responder a uma pergunta simples: e se a própria economia da conta de luz pagasse o sistema solar? O Programa Indústria Solar foi a aposta — e, por um tempo, funcionou.

A ideia: energia solar que se paga sozinha

O programa nasceu de uma constatação: o principal obstáculo à energia solar não era o telhado, era o caixa. Poucas indústrias — sobretudo as pequenas — topavam imobilizar dezenas de milhares de reais num investimento que só se paga em anos. A saída proposta foi o modelo autofinanciável.

Na descrição de Rodolfo de Sousa Pinto, então presidente da Engie Geração Solar Distribuída, os cálculos das ofertas eram montados "de maneira a equacionar os valores": a quantia economizada na fatura de energia passava a cobrir a parcela do financiamento. Se o empresário optasse pelo parcelamento, a empresa não precisaria mexer no fluxo de caixa — o sistema, na prática, se pagava com o que deixava de ir para a distribuidora.

Quem estava por trás

A idealização foi da FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina). A ENGIE e a WEG forneciam e instalavam os sistemas e credenciavam fornecedores locais. O financiamento e o apoio institucional vinham de um arranjo de instituições catarinenses: a distribuidora CELESC, o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) e a cooperativa de crédito CECRED. Os materiais de lançamento também citavam o BADESC entre os apoiadores — embora o release da segunda etapa, em fevereiro de 2018, já listasse apenas CELESC, BRDE e CECRED.

Como aconteceu, em datas

O lançamento foi em 27 de outubro de 2017, na sede da FIESC, em Florianópolis. A primeira fase — um piloto de sistemas residenciais dirigido exclusivamente aos mais de 40 mil colaboradores das entidades participantes (Sistema FIESC, incluindo SESI-SC, SENAI-SC e IEL, além de ENGIE, WEG, CECRED e CELESC) — teve as inscrições abertas em 20 de novembro de 2017, pelo site do programa.

A segunda etapa chegou em 23 de fevereiro de 2018, estendendo às micro, pequenas e médias indústrias catarinenses as facilidades antes restritas ao residencial. Os números do piloto ajudam a entender por que a expansão veio rápido: em três meses, a primeira fase já acumulava mais de 1.250 inscrições.

O que o programa entregou

O balanço mais citado é de julho de 2018, num artigo da ABSOLAR: em seis meses, o programa reuniu 2.560 inscrições607 indústrias interessadas em sistemas para a produção e 1.953 pessoas físicas buscando sistemas para casa. Para um programa regional de energia solar, era um volume expressivo, num momento em que Santa Catarina tinha cerca de 2,2 mil sistemas fotovoltaicos em operação.

Nos materiais, os sistemas residenciais partiam de R$ 10.428 (1,95 kWp) e chegavam aR$ 16.338 (3,25 kWp), financiáveis em até 60 vezes, com retorno estimado em até cinco anos — depois dos quais a conta de luz caía à taxa mínima da concessionária.

As réplicas: Rio Grande do Sul e Mato Grosso

O modelo foi exportado. Em agosto de 2018, o programa foi lançado noMato Grosso. E no Rio Grande do Sul, no segundo semestre de 2018, veio a edição gaúcha — iniciativa da FIERGS com a ENGIE e a WEG, apoiada peloSicredi e pelo BRDE, com inscrições abertas até meados de dezembro. Foi na versão gaúcha que apareceu o número que ficaria associado ao programa: com geração própria, o empresário "chega a economizar até 95% no valor da fatura" — uma cifra que, vale registrar, constava do material do RS, não das peças catarinenses.

Por que acabou

Depois de 2018, o programa silenciou. A explicação de fundo veio em 15 de fevereiro de 2022: ao divulgar os resultados de 2021, a Engie Brasil confirmou a saída do negócio de geração distribuída, com a intenção de vender a subsidiária Engie Geração Solar Distribuída — a mesma unidade que fornecia e instalava os sistemas do Programa Indústria Solar. O balanço registrou R$ 78 milhões de impairment nos ativos da empresa.

A justificativa de Eduardo Sattamini, presidente da Engie Brasil, foi direta: a geração distribuída era "um negócio de baixo valor agregado, baixa barreira de entrada, com uma pulverização muito grande de mercado", que fazia a companhia "perder foco no principal negócio". A empresa redirecionava capital para geração centralizada e transmissão. Sem o braço que executava as instalações, o programa perdeu o motor — e não teve sucessor com o mesmo nome.

O que ele deixou

O Programa Indústria Solar foi um dos primeiros a tratar a energia solar não como compra de equipamento, mas como produto financeiro: o que se vendia era o payback, não o painel. Essa é a herança que sobrevive ao programa — o modelo autofinanciável virou lugar-comum no mercado, e hoje boa parte das ofertas de solar para a indústria repete, com outros nomes, a mesma lógica de "a economia paga a parcela". Quem quiser entender como esse cálculo fecha na prática encontra o passo a passo nos nossos guias.


Fontes

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